dezembro 18, 2013

     
     Vade retro

 Para Júlia, por quem ninguém perguntou. 

 Não preciso de dez mandamentos para viver,
 basta um só: não interferir na vida dos outros. 

 vá ler Drummond 

     Quando a encontrei, ela me sorriu. Desejou-me paz, e fez votos positivos, quase parecendo acreditar nas palavras que dizia. Por trás de uma pureza escandalosamente forçada, o diagnóstico: tratava-se de um caso grave de disfarce patológico, conjugado com o clássico e insidioso idílio do amor demais, em realidade, frustrado. Típico caso de live in past, do qual simulava o contrário. "Veja como sou segura e feliz", se insuflava em "estou farta de pessoas que confiam em si mesmas", "vejo-os tão contentes e bem-resolvidos, por que não eu?" e outras alegorias más. Bem dizer, más alegorias. 
     Tudo levava a crer que comparava, talvez de modo inconsciente e, portanto, sem o querer, o que quisera ser, com o que nunca soube ser, tampouco seria, teria sido, fosse. Perdia demasiado tempo com o que não era. Era outro. 
  Era clínico, não hesitei. Confundia-se em incontáveis silêncios, vacilante. Criaria coragem? Seus pensamentos rondavam, daqui e dali, de modo um tanto obsessivo: "precisava saber". Saber, na realidade, menos. Menos de si, e dos outros. Fazia perguntas estúpidas, que não despertam interesse. Era aborrecida. Faltava-lhe algo, mas quê? Seu descontentamento a trazia de volta, sempre de volta, como uma moléstia cíclica, que eclode na pele. Inventava mil desculpas, sempre a si mesma, pois não convencia a ninguém. Consumia-se por um coração não seu, sob clausura voluntária. 
     Eu a escutava. Todos os detalhes, as vírgulas. Quase podia ver seus olhos, por um triz quase sentia pena, era-me tão óbvia. E me soava vulgar, de uma vulgaridade patética, de tão sacra. Eu estava às suas costas, e analisava. Enquanto falava, dizia que eu "a podia julgar" como quisesse. Dava a ver que "juízo" não a afetava. Tampouco o divino, que pelo dito, vê tudo. Ignorava seus paradoxos mais íntimos, não os alcançava. Eu a escutava, e observava seus gestos. Falava de outros, e tinha uma voz desagradável. Era gordinha, tinha uns vinte e poucos anos, e morava longe. Longe, tão longe, que devia-lhe cansar, por certo, deslocar-se até aqui. Quanto esforço! 
    Mas ela vinha. Quando não vinha, ninguém sentia-lhe falta. Nem a desejava presente. Contava-me coisas sem nexo, e sem qualquer razão aparente. Tirava suas próprias conclusões, de seu próprio absurdo. Eu não desfazia apatia, e um certo asco. Nem Clarice nem Nietzsche, nem Jung nem Buda ensinaram-me empatia pela dissimulação. Acho feio. Quase como artigo que não se limpa. 
   Trazia-me fotos, vez por quando. Também elas não me despertavam interesse; menos ainda que a questão: que tenho eu a ver com isso?, que quase me enraivecia. Telefonava, fazia o possível para não se perder de vista, não aguentaria. Tinham de prestar-lhe atenção, era um pouco infantil. Eu lhe diria que se ocupasse consigo, não haveria melhor conselho e partida. 
     Dava-se, às vezes, o privilégio de me fazer perguntas, não sei por quais motivos. Talvez por curiosidade. Ou para iludir-se. Quem poderia saber, senão ela, do que imaginava e de seus desejos? Sua conduta era inadequada, deselegante e desmedida. Pra não dizer desonesta, e um pouco torpe. Suas palavras não tinham força, nem sequer eram verdadeiras. Franqueza lhe faltava a si, consigo mesma. Dizia ser uma pessoa confiável, querendo convencer-se. Leal, dizia. Seu marido sabia. Todos sabiam. De certo, não saberiam tudo. Seria preciso dar-lhes notícia das notícias pelas quais ela insistia, sequiosa pelo gosto. Não percebia que tudo de que dispõe é de um pouco de tempo. Desperdiçava-o com relações imaginárias, que iam e vinham, e iam e vinham, e iam... 
     Deixava-me cansado. A certa altura, dizia-se filha de deus, louvada fosse, longe de minha vista. Quiçá seu deus pudesse reduzir-lhe os mandamentos, bastava-lhe um, que lhe custava aprender: viver sua própria vida. Descer à terra, ao seu entorno, ao o que está a seu lado, ao seu presente. Era o melhor presente que poderia dar a si mesma. Aprender a exorcizar seus demônios, deixar cair, cair na real, esquecer. Sua esperança, certa vez, fora ter um filho, ah, se tivesse um filho, tudo seria diferente, seria para sempre. Não fosse seu despropósito, poderia aprender a bastar-se. Angustiava-se, e se consumia: como estaria a vida alheia? Como estaria o amor, onde houver? Teria dado frutos, crescido; teria-se expandido, fortaleceu-se? Diferenciou-se? Entoava para si seu próprio canto de loucura. E estava inevitavelmente só, em seu destempo e quimeras, presa num pretérito imperfeito. Eu poderia ter-lhe dito qualquer coisa, e nada. 
     A vida passa na rua, sai por todas as portas, verdeja por todos os lados, se ilumina. Mas você só vê o que vê. Cure seu abandono. Cuide da dieta. Cuide de você. Da sua sombra. Non ipse venena bibas.

dezembro 03, 2013

agosto 28, 2013

Previsão 
Chove na Rua da República. A luz do dia esmaece, e as únicas estrelas aparentes são as que se destacam nas calçadas antigas, compostas de pequenas pedras negras, que diferem das rosadas que as entornam. Sempre que passo por esse caminho, as estrelas me convocam. Penso na calçada da fama que nunca vi, e admiro ainda mais a beleza das estrelas anônimas da República, que se desdobram como um tapete lúdico em meio ao trânsito convulso dos fins de tarde, em meio ao odor de fast-food dos bares, em meio aos mil passantes apressados com seus guarda-chuvas desviantes, em meio aos parapeitos vingativos que gotejam fuligem. Em noites como essa, as estrelas se revestem de um atmosfera risonha, livres da competição celeste. Astros infames, as estrelas da Rua da República guardam silenciosas os percursos cotidianos, espiam o sono dos homens desacomodados das ruas, cintilam a poética impensada dos lugares de passagem. Chove sobre as estrelas, que saúdam com a graça dos estados encantados, os olhares que se inclinam.

abril 17, 2013



Amigo da onça

Sim, ele disse. Quem nunca teve um amigo da onça? 
Fiquei pensativa. Eu já teria tido, um amigo da onça? Considerando a floresta, pensei. Amigo da onça: indivíduo que se mostra amigo e, ao mesmo tempo, alguém em quem não se pode confiar. Amigo da onça, que triste. Se alguém me perguntasse o que dizer sobre um amigo da onça, eu diria: triste! Talvez  seja uma coisa profunda, dar de ver um amigo da onça. É como um soco no olhar da gente, sabe? Um sismo. De repente tudo se desloca.