dezembro 12, 2010

Um sopro

Por nós.

Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos.

Rainer Maria Rilke

Tirou do bolso um livro sagrado, e me deu. – Aprenda a respirar, é um exercício e um segredo, disse. Li as pequenas letras douradas do título e me incomodei um pouco com a verdade. Guardei-o na bolsa e sorri. – Vai te fazer bem, disse. Não respondi. Mas pensei que se houvesse algo que naquele instante pudesse me fazer bem, certamente não seria a verdade.

Silenciamos por um tempo no caminho de ida, e no caminho de volta, a volta parecia não ter fim. Tudo que eu podia pensar era que as horas feitas de finuras e afins findavam. Tentei dissipar o pensamento em olhares voláteis, observando sem deter-me nos detalhes a paisagem que se abria num horizonte de acasos, como aquele que nos fizera cúmplices. Mas não existem acasos, e eu bem sabia. Voltei ao pensamento com certo desconcerto, certa de que a razão é insuficiente e de que a vida é mais misteriosa e fatal do que qualquer oráculo jamais poderia prever.

No limite do razoável nos contemplamos cansados, fatigados de silêncio e fim. Eu lamentava nosso encontro em descomeço, no avesso do que é vida e se esvai. E então partimos, por entre escolhas e abismos, partidos de nós, divididos e doídos e um pouco fracos.

Ali eu pressentia a inconstância no passar dos dias, as contrações e os contra-sensos de um corpo que desaprende o movimento de expansão, e apenas contrai. Eu temia não mais vibrar, temia perder o contorno e dissipar na ausência de gestos qualquer possibilidade de recomeço, de re-contexto. Numa fração de segundos, enquanto eu assuntava sensações e pensares, nos despedimos; ambos sabendo que olhar pra trás seria o adiante, até que o mundo desse conta de girar um pouco e a gravidade nos devolvesse ao centro.

Do que faltava, escolhi o caminho mais longo, que faria em passos curtos e pensando no que acontecia, buscando encontrar um sentido no meio do que concretamente parecia ser o caos. Pincei todos os momentos e memórias, da infância ao inferno. Naquela manhã ao acordar, com os raios de sol ainda tímidos e mansos a perpassar as frestas da persiana entreaberta, delineei um esforço quase sem forças de levantar-me. Ao estender o braço em direção ao relógio derrubei sem querer a escultura. Mais cacos, balbuciei sonolenta. Era um dragão, um pequeno dragão que vivia comigo. Tinha nos pés garras, como uma águia, e também asas. Inclinei-me à beira da cama e vi que a cauda havia quebrado. Não me soava um bom presságio, ouvi dizer que dragões sem cauda simbolizam perdas. Mas como eu de fato estava perdida, me ri do universo e levantei, ia encontrá-lo.

Coincidências não existem, e eu bem sei. Dragões simbolizam a força primitiva e ancestral, estão ligados à criação do mundo. Um dragão tanto pode ajudar quanto destruir, proteger ou corroer, são ambíguos os dragões. São como gente, não? Talvez mais livres.

À medida que me aproximava do porto e a tarde caía, a bruma ia invadindo as ruas, engolindo o horizonte. Olha o sopro, pensei; ao mesmo tempo em que inspirava lentamente o ar e aspirava o mistério. O sopro, eu quase ouvia. Havia lido em uma antiga lenda chinesa que quando a bruma cai, é porque os dragões estão soprando. Eles chegam, quando a bruma desce. Eu andava reto, mas pensava em círculos, certa de que não era acaso. O dragão chegava e aniquilava a própria cauda, indicando o fim e o começo de um novo ciclo, como a serpente.

Não sacrifiquemos o respiro, a verdade é um problema. Deixa-me construir a casa com telhado reclinado, pra que o dragão que voa longe, descanse.


6 comentários:

F disse...

A verdade nem sempre faz bem. Mas o que é mais importante, o bem ou a verdade? =)

Ciclos se renovam, mas algo sempre resta, nem que seja como resto. E na perda, nem tudo está perdido. Importa saber o que fazemos com aquilo que permanece.

Resíduo
Carlos Drummond de Andrade

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

... disse...

Bah, que lindo. Me chega essa outra voz, que atravessa também a tua, como um perfume. Me chega e fica um pouco, não tão pouco.

maricotinha ♥ disse...

Obrigada pela visita!
Gostei muito do seu jeito de escrever!
Coincidências?
Beijos,

Fabrício Tavares disse...

Sadrinha, eu não sei o que te dizer... eu tô muito tocado com essa escrita!
Ao te ler, me sinto levado pela mão, de uma maneira suave, mas não em uma simples caminhada, enfim, seria mais como num vôo. Ou como se estivéssemos no mar, nas ondas. Acho que tua escrita tem ritmo de mar, aquela coisa 'rizomática' das ondas.

Fiquei me perguntando uma pergunta caioana: será que não escreves, com o ritmo absoluto do teu texto, de contista-poetisa que és, inventários do indizível em levitação?

Muito beijos, minha amiga!
E continua oferecendo pro mundo a tua escrita, porque ele precisa.
Fa.

... disse...

fa, que lindo. fico pensando, cada escrita é como uma onda, e como pular uma onda, não te parece? é ao mesmo tempo profundeza e superfície, quem sabe.

Fabrício Tavares disse...

sim =))