novembro 16, 2010

Uma carta, uns cortes.

Para o Sal, um brinde.

If I were a good man, I’d understand the spaces between friends.

Cai uma chuva densa e rouca, entre trovões e travas. Aquelas, de que te falava outrora, e que exorcizo aos fiapos nessa escrita. Fico pensando se alguém mais terá pensado se, ao publicar uma carta num blog ela terá deixado de ser uma carta. Será? Não uma carta que já foi escrita antes e enviada, e que depois de um longo tempo e um pouco de prestígio sai dos baús do anonimato e vira evento. Mas isso não tem importância. É só uma questão cruzada, preocupação com o que seja uma carta de verdade. Verdade, verdade... discussão que nunca acaba, não é verdade? Sim, sim. Tu dirias não ter sido claro o suficiente e eu diria... eu diria o mesmo. Porque é mais simples compartilhar melancolias do que acompanhar raciocínios, não é verdade? Mas afinal, qual era mesmo o assunto dessa carta? Ah, sim, na verdade não importava o assunto, mas o ato. Já que o assunto não tem importância, vou falar do desimportante. Porque eu gosto do desimportante, de verdade. Ah, tantos anos e nenhuma análise. Tanta vida, e tantos cortes. O que tio Freud diria de um sonho que se sonha só, meu caro? Viu como eu flutuo só na superfície? Só, na superfície. Quando chegarem as gentes, dear, diga que vivo meu avesso. Essa frase não é minha, mas isso também não tem importância. Aliás, nada aqui tem importância. Só fraseio com a linguagem que me ausenta do que possa decifrar. E gosto.

PS: teu conselho virou bilhete.


3 comentários:

F. disse...

E é na superficie da linguagem que a enunciação atravessa o enunciado e faz brotar o sentido. E o sentido é aquilo que não cabe na decifração. Alguns chamam a isso verdade, outros poesia. =)

F. disse...

E o que há antes da carta, "avant la lettre"? Antes da carta, da letra, do nome? Não há anterior, interior, fora-do-fora. Como na banda de moebius, damos voltas na linguagem apenas para permanecer em sua superfície.
Flutuemos. =)

Anônimo disse...

E os comentários, são cartas?

Lacan disse certa vez que Freud considerava as imagens do sonho como "lettres", letras. Ou cartas, dependendo de como se prefira trair.
Vou pensar no sonho.