outubro 27, 2010

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Julho de 1880

Meu caro Théo,

É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos. Até certo ponto, você se tornou um estranho para mim, e eu também talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É possível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. Soube em Etten que você tinha me enviado cinquenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo?
E é portanto para agradecer que lhe escrevo. [ ]
O que para os passaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isto não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja. [ ]
Preciso agora lhe aborrecer com algumas coisas abstratas, no entanto gostaria muito que você as escutasse com paciência. Sou um homem de paixões, capaz de, e sujeito a fazer coisas mais ou menos insensatas, das quais às vezes me arrependo mais ou menos. [ ]
Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me como um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não. Mas trata-se de por todos os meios tirar destas paixões o melhor partido. Por exemplo, para falar de uma paixão entre outras, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão. Você poderá entender isto. [ ]
Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário. Mas qual é o seu objetivo definitivo?, você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, a medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a ideia, no início vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos. [ ]
O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama queimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar esta chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e no entanto com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora em que alguém desejará aproximar-se - e ficar? [ ]
Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois que tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma mudança para melhor, computaria isso como um ganho, ficaria contente, e diria: "Enfim, afinal, havia alguma coisa". [ ]
Um pássaro na gaiola sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: "Os outros fazem seus ninhos, tem seus filhotes e criam a ninhada", e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. [ ]
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. Será isto tudo imaginação, fantasia? Não creio; e então perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade? Você sabe o que faz desaparecer a prisão.

Do seu,
VINCENT




outubro 14, 2010

Mis aforismos son notas marginales [ ] Con ellos no se podría, estrictamente, hacer otra cosa que no fuera sufrirlos y olvidarlos. Publicarlos es, tal vez, la manera más universal y contradictoria de conseguir ambas cosas.
Julio Cabrera

Ao som de Otto,
6 minutos

Desarruma tudo, sem saber de mim, Desarruma rumo, rumino eu, no silêncio e grito da escrita que falha e treme. E teme um tanto. Aqui por fora é só silêncio e limbo do que não digo, do que não dizes. Do que te guardas de mim, de ti.
Com descoberta ele disse, um dia, que a saudade é nossa, pois nenhuma outra língua traduz 'sentir falta de' com apenas uma palavra. Mas a saudade não cabe, nem em três palavras, nem em uma. Saudade é desnome, nome de ausência. Só é boa pro poeta, que verseja. não sei ser poeta
Não tenho escrito porque tenho pensado demais na escrita. No momento em que me sento a escrever a sensação se perde e eu raciocino, e morro. Trago a cesta cheia de uma colheita fértil, mas é como se eu
quisesse nascer e não conseguisse. Tomo consciência de todas as tintas sobre a mesa e da dificuldade de terminar o que começo. Sou engolida pelo instante que não colore nem fraseia, mas congela, e é porque eu tenho insônia que recorto esses retratos, num jogo exausto de adivinhação e espanto. Me basta ler, reler, ruir. Tenho adiante um silêncio cruzado, algumas questões sem resposta e todos os caminhos para dentro, ao que não sei seguir. Na esquina eu vejo ruínas, meu olhar alcança.