agosto 08, 2010

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Iniciada, pressinto a mudança de estação. E desejo a vida mais cheia de um fruto enorme. Dentro desse fruto que em mim se prepara, dentro desse fruto que é suculento, há lugar para a mais leve das insônias que é a minha sabedoria de bicho acordado: um véu de alerteza, esperta apenas o bastante para pressentir.

Clarice Lispector
Setembro de 1967
A descoberta do mundo

agosto 04, 2010

Todavia tolices.

Sempre que recordo o desprender daquela manta é como se o inverno ainda não fora embora. Seria só o inverno se não fosse aquele nó de fumaça e gim que me dizia fale-me de você naquela noite fria, em que eu ficara como que paralisado e com medo, com medo de não saber o caminho de volta pra casa. Todos aqueles jovens com sua solidão e cigarros e naquela altura já não me convinha estar sozinho, eu que ali entrei pela canção, lembro que naquela noite fazia frio e eu senti um sopro, lembro-me que senti um sopro de abismo ao passar em frente à porta e lembro-me de que a fumaça me chegou dizendo I could be your lover, I could be your friend... e então eu fui até a porta e vi toda aquela gente e tanta fumaça e pensei que
Fui até o bar e observei os rostos tão estranhos e brancos e ali fiquei, por uns minutos. Hesitei em pedir uma dose, suspenso a observar os rostos e os corpos e o figurino cretino do Fred Mercury na tela. Acendi um cigarro entre o som alto e impressões de riso baixo, todos pareciam tão indiferentes mesmo quando falavam entre si e riam de coisas que eu não sabia. Muitos pediam passagem, eu estava ao canto cantarolando baby it's all right, honey it's all right entre o espelho o bar a janela e a tela, de modo que podia ficar onde estava e tudo acontecer. Então fumei a pensar que seria bom conhecer alguém naquela noite ali ali mesmo a esmo, ou não tão a esmo assim e foi aí que de repente sem ao menos ter tido tempo de pegar aquela dose que apareces súbito, como uma bomba.
Tropeçou nos meus sapatos e me estendeu a mão pedindo fogo. Lembro que fitei teus lábios tão mais pálidos que os demais mas tinhas maçãs um pouco mais rosadas e olhos tão terrivelmente castanhos que se confundiam com o abrigo marrom que envolvia o pescoço. Então naquele instante tudo parecia fazer sentido embora eu já não soubesse bem ao certo se algo deveria fazer sentido, ou não. A verdade é que eu permaneci calado e suspenso, algo como uma língua estranha que eu nunca houvesse ouvido me deixava tonto e aquela música que tocava agora e você parado à minha frente me olhando fundo com um cigarro que levava aos lábios com um quê de demasiada simpatia. E foi aí que se aproximou do meu ouvido e disse fale-me de você com uma voz arranhada e quase erótica e então eu me senti completamente frouxo e mudo e tolo e respondi com uma voz baixa e quase rouca que eu estava ali somente porque não poderia estar em outro lugar. Não agora não naquela hora não naquele instante. E tudo mais que pensei foi pouco ou sobrou e eu permaneci calado por alguns segundos, lisérgico. Então alguém te chama e estende a mão e vocês se cumprimentam com um sorriso aberto e calmo e ali eu vi seus dentes brancos e perfeitamente dispostos e senti vertigem e um desejo de desprender aquela manta e tatear tua nuca e
Tentei acreditar que tudo aquilo não poderia estar acontecendo e saí ,como quem foge. Parei ao lado da porta e acendi um cigarro deixando que a parede de tijolos expostos segurasse meu corpo trêmulo de frio e fuga e medo e desejo. Mas pensei que não poderia sair assim sem vê-lo novamente sem ao menos saber como se chama sem ao menos
Entrei. Procurei-o discretamente no meio da nuvem de fumaça e pele e me senti tonto quando vi que você também me via e me via o vendo e eu sabia que não saberia o que fazer se você viesse agora interrompendo qualquer coisa inacabada em mim qualquer pensamento em desconcerto e então novamente a vertigem e novamente o medo e novamente tudo aquilo cada vez mais perto. E foi então que você veio.

agosto 03, 2010

Os dois lugares do conto.

Aqui ou lá.
Alhures. Acolá.
Nem aqui e nem lá.

[no caso]