maio 22, 2010


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É inútil perguntar se Descartes tinha ou não razão. Pressupostos subjetivos e implícitos valem mais que pressupostos objetivos explícitos? É necessário "começar" e, no caso positivo, é necessário começar do ponto de vista de uma certeza subjetiva? O pensamento pode, sob essa condição, ser o verbo de um Eu? Não há resposta direta. [ ] Há um plano melhor que todos os outros, e problemas que se impõem contra os outros? Justamente não se pode dizer nada a este respeito. Os planos, é necessário fazê-los, e os problemas, colocá-los, como é necessário criar os conceitos. [ ] Certamente, os novos conceitos devem estar em relação com problemas que são os nossos, com nossa história e sobretudo com nossos devires. [ ] E se podemos continuar sendo platônicos, cartesianos ou kantianos hoje, é porque temos direito de pensar que seus conceitos podem ser reativados em nossos problemas e inspirar os conceitos que é necessário criar. [ ] Que alguém tenha tal opinião, e pense antes isto que aquilo, o que isso pode importar para a filosofia, na medida em que os problemas em jogo não são enunciados? [ ] A comunicação vem sempre cedo demais ou tarde demais, e a conversação está sempre em excesso, com relação a criar. [ ] aqueles que criticam sem criar, aqueles que se contentam em defender o que se esvaiu sem saber dar-lhe forças para retornar à vida, eles são a chaga da filosofia. São animados pelo ressentimento, todos esses discutidores, esses comunicadores. Eles não falam senão deles mesmos, confrontando generalidades vazias. A filosofia tem horror a discussões. Ela tem mais o que fazer.

Gilles Deleuze
O que é a filosofia?

maio 10, 2010


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Diálogo entre Clarice Lispector e Carlinhos Oliveira, considerado a maior afirmação da crônica brasileira na década de sessenta.

Clarice Lispector: Quem é você Carlinhos? E por Deus, quem sou eu?
Não, fora de brincadeira, o mundo tá se acabando e nós não estamos fazendo nada. E eu, gripadíssima, e de mãos sem forças pra ajudar os que imploram. Fala Carlinhos, fala...
Carlinhos Oliveira: Bom, eu acho que você é Clarice Lispector. Mas eu não sei quem eu sou. Aliás o mundo está, cada vez mais, tá completamente fudido, sem saída. Agora, nem eu nem você temos nada a ver com isso.
CL: Isso diz você, que não tem filhos. Mas todo mundo Carlinhos, é meu filho e um filho a salvar. Como é que eu faço com tanto amor e tanta impotência? E não me refiro apenas a meus dois filhos, e sim aos filhos dos homens.
CO: Os filhos dos homens formam a humanidade, que mais ou menos há quatro milhões de anos são mandados à morte. Agora, o problema é deles, quer dizer, não há nada que eu possa fazer contra isso. Como dizem as crianças, é tudo violência e injustiça, "azar, azia, azeite".
CL: Carlinhos, nós dois escrevemos e não escolhemos propriamente essa função, mas já que ela nos caiu nos braços, cada palavra nossa devia ser pão de se comer.
CO: Isso é absurdo. Eu por exemplo, quando eu digo "filha da puta", ninguém publica. Quer dizer, estamos fadados a aguardar uma língua, nós temos uma coleção de palavras, nós somos uns idiotas... Agora, eu te pergunto uma coisa: por que você escreve? Por que você não escreve?
CL: Respondo as duas perguntas. Escrevo porque não posso ficar muda, não escrevo porque sou profundamente muda, e perplexa.
CO: Ora! Frescura né? Porra...
CL: Não, eu to falando sério. Tão a sério que você não tá suportando, e sai pelos lados, não me enfrenta.
CO: Bom, se você tá falando tão a sério Clarice, é porque falar a sério pra você tem uma importância, não? Agora, pois bem, eu não acho.
CL: Então vamos deixar tudo morrer?
CO: Não, bem...se não fizermos não é, tudo morrerá.
CL: Ai Carlinhos, vamos mudar de assunto? Porque a gripe tá piorando demais pra eu aguentar o peso das coisas. Pergunto-lhe agora: Por que você não escreve um romance?
CO: Porque eu não tenho competência pra isso.
CL: Você já tentou?
CO: Olha, todas as pessoas que não entendem a vida acreditam que a vida é feita de sucessos. Pois bem, essas mesmas pessoas adoram o Van Gogh porque ele cortou a orelha, o Toulouse-Lautrec porque ele era anão, o Rembrandt porque morreu de tuberculose, o Modigliani porque morreu de fome... O James Dean porque morreu na estrada, a Marilyn Monroe porque se matou, é claro... Agora, essas mesmas pessoas acreditam na posteridade porque elas acreditam que elas são a posteridade, to cagando pra posteridade.
CL: Anh...nós não nos entendemos. Fazer romance não é sucesso. Você até parece com aquele que dizia que a literatura é o sorriso da sociedade. Fazer sucesso é ir ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue correr. Carlinhos, nós dois gostamos um do outro, mas falamos palavras diversas...
CO: Falamos linguagens diferentes, é verdade. Agora, eu prefiro ser feliz na rua a ter que cortar a vida em dois.
CL: Eu prefiro tudo, entendeu? Eu não quero perder nada, eu não quero sequer, a opção.
CO: Não, você prefere inclusive ser uma grande escritora. Eu já há muito tempo abri mão dessa vaidade. Eu prefiro beber, comer, fazer amor, morrer. Eu não me sinto responsável pela literatura.
CL: Nem eu, meu caro. Olhe, eu também posso lhe dizer que, se viver é beber, isso é pouco pra mim, eu quero mais porque a minha sede é maior que a sua.
CO: Evidentemente.
CL: Eu gosto muito de você Carlinhos.
CO: Mas nós não estamos aqui a favor de amizade, e sim, mostrando que uma escritora como Clarice Lispector ao invés de comer e beber comigo tem que pensar estrevistas pra poder sobreviver. É por isso que eu digo o seguinte, eu digo sempre: temos que jogar uma bomba atômica na Academia Brasileira de Letras.
CL: Carlinhos, vamos terminar essa minha tentativa de sobrevivência financeira com uma coisa que não nos humilhe, hm? Faça uma chave de ouro.
CO: Tudo nos humilha. Tudo, nos humilha. Ninguém acredita em nós. Tá tudo certo pra eles, mas só nos pedem idiotices. E isso é uma chave de ouro, o resto é literatura.

De Corpo Inteiro - Entrevistas
Nicole Algranti
Brasil
2008

66'