abril 29, 2010

Cosmogonias individuais

"Por vezes sinto vontade de rasgar-me o peito, de partir-me o crânio, ao ver de quão pouco somos capazes uns em relação aos outros."
Goethe


Um cometa me atingiu, ferido. Um cometa louco. E eu, que sempre gostei de cometas, de repente me surpreendo, tenho pedaços de cometas pelas mãos, nos ombros, e bem no meio do peito. Um cometa me atingiu. Não sei de onde vinha, nem como. Mas veio, o cometa louco.
Não sabia que cometas feriam, hoje sei. Sei que cometa comete, acomete, incomoda. Hoje sei um pouco mais sobre cometas porque um me acometeu. Sei que cometa tem gelo, só não sei o quanto. Também tem poeira e rocha, um cometa.
Descobri que o núcleo de um cometa é uma das coisas mais escuras que existe. Não gostei de saber disso. Preferia pensar que um cometa... apenas brilha, um cometa. Mas não. Isso é uma inverdade. Antes me eram mais poéticos os cometas, e eu, mais ingênua em matéria de cometas.
Hoje sei que cometas viajam. Às vezes colidem. Vem de além da órbita de Netuno, alguns cometas, e penso que de lá veio o cometa louco. Netuno tem ventos mais fortes que qualquer outro planeta. Faz sentido, penso. Se fosse um filósofo clássico ou poeta popular, diria que isso é sinal de mudança. Mas não sou nem um, nem outro. E nem sirvo pra Poliana.
Cometas explodem, às vezes. Não se sabe ao certo as causas, mas sobram pedaços por todos os lados. Tenho um bem no meio no peito.

abril 25, 2010


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Talvez seja um elo nos permitindo passar de um sujeito para outro, para consequentemente viver junto. Mas até mesmo relações socias são ambíguas, desde que o pensamento divide tanto quanto une. Desde que palavras unem ou isolam por aquilo que elas expressam ou omitem. Desde que um imenso golfo separa minha consciência subjetiva da verdade objetiva que eu represento para outros. Desde que me responsabilizo constantemente, embora me sinta inocente. Desde que cada evento transforme minha vida diária. Desde que constantemente eu falhe em comunicar, desde que cada falha me faça ciente da solidão. Desde que.
Desde que eu não possa escapar esmagando objetividade ou isolando subjetividade. Desde que não possa elevar ao estado de ser ou cair na inexistência, eu devo escutar, devo olhar ao redor mais do que nunca. O mundo, meu parente, meu gêmeo. O mundo. Sozinho.
Hoje, quando revoluções são impossíveis e guerras me ameaçam, quando o capitalismo está incerto quanto a seus direitos e a classe que trabalha recua, quando o progresso relâmpago da ciência traz o futuro inevitavelmente próximo, quando o futuro é tão próximo quanto o presente, quando galáxias distantes estão à minha porta [ ] Para dizer que os limites da linguagem, de minha linguagem, são aqueles do mundo, de meu mundo e aquele que está na fala. Eu limito o mundo. E o termino. E quando misteriosa, a morte lógica revoga estes limites, já não haverá nenhuma pergunta, nenhuma resposta, apenas divagação. Mas se as coisas são novamente enfocadas, isso só pode acontecer através do renascimento da consciência. Tudo segue isso.

Jean-Luc Godard
2 ou 3 choses que je sais d'elle
1967

abril 18, 2010

Diletante & dissidente

[Dândi]
Tawamba
2010
[ ]

Na clínica, estou rodeado de monjas estrangeiras. Uma entra pela porta e me diz: "Sempre escrever, escrever. Quanta filosófia." Volto a ler o que escrevi e me envergonho se o nível tem de estar à altura da "filosófia". Outra, todas as noites, me traz um copo de água de Lourdes. Aponta-o. "Você bebe!" Há dias me disse: "Agora que você esvaziar sua pleura, tem que esvaziar seu coração." Receava que se referisse às injeções. "Sim, sim, você coração muito carregado." "Mas quando teria de esvaziar?" "Quando você quer, qualquer momento é bom."

Federico Fellini
Fellini por Fellini,
L&PM
1983

abril 15, 2010


Nenhuma grandiloquência.
Nenhuma profundidade explícita.
Arnaldo Antunes

A poeira invade a existência


Pilhas de livros rabiscados. Discos, jornais e pontas de cigarro. Cheiro de cigarro. Cheiro de existência. Um tapete roxo uma vida roxa Olheiras. Dias e noites taciturnas, camomila e tédio. Frases permeadas de silêncio, sons da rua, transeuntes bêbados. Da janela passos, ruídos que povoam o imaginário recortado em poesia e ócio. Apenas uma noite só, tentativas ébrias fatos e retratos fuga e chuva. Vil releio a vida, taça poeira despedida fragmentos do que outrora fora. Não pensar no tempo.
Todo dia tento. desatento

abril 14, 2010

Augusto de Campos
Pós-tudo
[1984]

abril 13, 2010

Àqueles que soam, e seduzem: aos amigos.

Palavra plana


Só sei escrever na pele.
Se um dia me disserem que a palavra é plana, digo que a palavra pulsa. Se me disserem que a palavra é pouco, digo que é pele. Ranhura e tempo. Respeito.
Já ouvi dizer que o poeta é louco e o profeta sábio. A mim tanto faz, digo que a palavra é poro. Vazão. Desrazão semântica. Palavra alucina a vista. E disparata a distância.
Só sei inscrever no instante. Só se dele tomo posse me toma posse a palavra. Dizem por aí que só se escreve partido. Na partida da palavra. No momento em que ela escapa. Se um dia palavra presa, noutro a pele é só palavra.
Ainda ouço dizer que palavra presa faz o corpo doente. E corpo doente não dança. Não me importo com o que dizem, contanto que se duvide.