fevereiro 02, 2010

Alfazema

Ao Madu

Importante é a luz, mesmo quando consome. Caio F.


- Trouxe-te estes galhos.

Assim eu via o dia ir embora. E ela.

A choupana quase na entrada da clareira, no meio do caminho para o cimo. Era lá que ela ia ter todos os dias, no crepúsculo, com seus pensamentos mais secretos - tão secretos que quase me doíam. Por motivos quaisquer que eu desconhecia, e que talvez por isso a esperasse sôfrego ao cair de todas as tardes, pois uma delas poderia quiçá, revelar-me algo. Mas não revelara.

Pensei então que pudesse ser por conta de uma solidão qualquer, um amor aflito, um conflito, um romantismo até, um romantismo qualquer. Mas não estava certo. Todos os dias eu a observa surgir, aos poucos, na entrada da clareira. O ar frio de Agosto embaçava os poucos vidros através dos quais eu discretamente desejava que ela aqui parasse, sem dizer palavra, e me acompanhasse a um café. Mas sem dizer palavra ela apenas passava. Pouco a pouco ao esfregar as mãos eu a perdia e sem nenhuma pressa ela subia; vez por outra se abaixava e tocava o solo, imagino que juntasse algo, mas também disto não estou certo.

Esta velha choupana que me abriga é quase a única que aqui habitam; é a última e mais próxima da entrada da clareira, de forma que eu posso vê-la surgir e tê-la em vista por alguns momentos, a rolar as pedras do caminho com seu passo leve, até que novamente o verde dela se aproprie, e eu, fique novamente só, com minhas vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Houve dias, quando a noite já quase caía, que calçava as botas, punha as luvas e as lãs e convicto me dizia segui-la, mas inconstante me negava, e por temor ou apatia, acabava por desligar o lampião, descalçar as botas, as luvas e as lãs, e me prostrava junto ao fogo do braseiro a repetir calado: eu, ela - e o instante da clareira.

Dias e noites se passaram e dela vagarosamente me esquecia, mas vez por outra, ao preparar meu café, ainda escutara o rolar das pedras, embora não mais me voltasse à entrada da clareira.

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Dicotomia

Ela esperava que o encontro fosse outro. Ao sair revistou a bolsa: cigarros, isqueiro, espelho, batom, lápis preto para os olhos, um pequeno livro de bolso com uns contos da Clarisse, papel, caneta e chicletes. As chaves. Onde estariam as chaves? Olhou ao redor em cima da mesa da cama da estante do sofá da pia da geladeira no chão embaixo das pilhas de livros de roupas de discos de sapatos. Nada. Onde estariam as malditas chaves? Aquele chaveiro estranho com um homenzinho verde pendurado, criatura de qualquer planeta, como ela. Onde estaria ele? Pensa procura pensa procura pára. No box, é claro, as chaves estão no box.
Quando chegara fora direto para o banho, ansiosa pelo encontro. Ali tirou os sapatos os brincos a blusa o jeans e a jungle – resquícios. Olhou-se no espelho e sorriu. Será que ele gostaria do que via? O vapor começa a tomar conta do banheiro, hora de escolher a roupa. Essa é definitivamente a melhor e a pior parte. Mas se ainda não sabe a roupa sabe pelo menos o que quer dela. Elas sempre sabem isso. Ou não? Olha no espelho, o corpo ainda molhado. Abre todas as portas de todos os armários e enquanto seca e olha no espelho vai pensando o que vestir. O que vestir o que vestir. Tanto tempo por esse encontro, nada poderia dar errado. Começa pelos sapatos, quer o vermelho. Óbvio, ela sempre, usa o vermelho. Mas eu sempre uso o vermelho, pensa. E eu tenho tantos. Mas o vermelho é tão versátil e confortável e bonito e indiscreto e. Vou com o vermelho.
Sapato calcinha e um band aid no joelho esquerdo. Calça. Tira a toalha do cabelo e liga o secador. O cabelo, um tempo à parte. Um lápis no olho, nada demais. Ah, e as bochechas, levemente rosadas. Precisa parecer natural, não quer que ele pense que passou horas se arrumando pra essa noite. Vestiu uma levis velha (501 nunca fica velho, argumenta) e uma camisetinha, meio nova. Uma camisetinha normal, não fosse pela frase, sutilmente (estrategicamente) estampada na parte de dentro da gola, nas costas: tu pisarás meus caminhos proibidos...
Algumas gotas do Z e uma pitada de canela na parte detrás dos joelhos. Afrodisíaco, dizia a avó. Pronto. Agora só faltam as chaves.

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Catástrofe Secreta

À meia-noite Paula ligou: "Pedro, quando escutar o recado, retorna". Paula é assim, cheia de pequenos mistérios. Permaneci onde estava, sem Paula, sem nada.
De Paula ficaram cacos, bulas, uns trapos. Nada que inspire poesia. Quando Paula me deixou tudo que eu fui foi outro, eu quis ser outro. Eu quis ser só, sem Paula.

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