novembro 18, 2015


Ontologia do fim das contas - ou uma pausa

Se ser si mesmo
É ser quem se é
E ser si mesmo
É ser outro
Quem sabe o si?

Se o si sou eu
E o eu, não sou
Que sei eu
Que não sei?

Quem sabe o si
O que é que sabe?

Assim seja
Quiçá

março 16, 2015


Lumière Brothers, Serpentine Dance - Loie Fuller


fevereiro 28, 2014

poesia esparsa

desejou-me desejo
realidade
mar
desejou-me
que tivesse sucesso
que fizesse um recesso
pra comemorar
trouxe seu punhado
de saudade
falou-me da beleza
tarde
disfarçou a idade
quando lhe sorri

pôs as tintas sobre a mesa
reparou nos meus sapatos
e nas flores
do jardim

arte não cansa
balbuciou intenso
como um
quando

o tempo é o que mais corre
respondi

a leveza
um zelo




dezembro 18, 2013

     
     Vade retro

 Para Júlia, por quem ninguém perguntou. 

 Não preciso de dez mandamentos para viver,
 basta um só: não interferir na vida dos outros. 

 vá ler Drummond 

     Quando a encontrei, ela me sorriu. Desejou-me paz, e fez votos positivos, quase parecendo acreditar nas palavras que dizia. Por trás de uma pureza escandalosamente forçada, o diagnóstico: tratava-se de um caso grave de disfarce patológico, conjugado com o clássico e insidioso idílio do amor demais, em realidade, frustrado. Típico caso de live in past, do qual simulava o contrário. "Veja como sou segura e feliz", se insuflava em "estou farta de pessoas que confiam em si mesmas", "vejo-os tão contentes e bem-resolvidos, por que não eu?" e outras alegorias más. Bem dizer, más alegorias. 
     Tudo levava a crer que comparava, talvez de modo inconsciente e, portanto, sem o querer, o que quisera ser, com o que nunca soube ser, tampouco seria, teria sido, fosse. Perdia demasiado tempo com o que não era. Era outro. 
  Era clínico, não hesitei. Confundia-se em incontáveis silêncios, vacilante. Criaria coragem? Seus pensamentos rondavam, daqui e dali, de modo um tanto obsessivo: "precisava saber". Saber, na realidade, menos. Menos de si, e dos outros. Fazia perguntas estúpidas, que não despertam interesse. Era aborrecida. Faltava-lhe algo, mas quê? Seu descontentamento a trazia de volta, sempre de volta, como uma moléstia cíclica, que eclode na pele. Inventava mil desculpas, sempre a si mesma, pois não convencia a ninguém. Consumia-se por um coração não seu, sob clausura voluntária. 
     Eu a escutava. Todos os detalhes, as vírgulas. Quase podia ver seus olhos, por um triz quase sentia pena, era-me tão óbvia. E me soava vulgar, de uma vulgaridade patética, de tão sacra. Eu estava às suas costas, e analisava. Enquanto falava, dizia que eu "a podia julgar" como quisesse. Dava a ver que "juízo" não a afetava. Tampouco o divino, que pelo dito, vê tudo. Ignorava seus paradoxos mais íntimos, não os alcançava. Eu a escutava, e observava seus gestos. Falava de outros, e tinha uma voz desagradável. Era gordinha, tinha uns vinte e poucos anos, e morava longe. Longe, tão longe, que devia-lhe cansar, por certo, deslocar-se até aqui. Quanto esforço! 
    Mas ela vinha. Quando não vinha, ninguém sentia-lhe falta. Nem a desejava presente. Contava-me coisas sem nexo, e sem qualquer razão aparente. Tirava suas próprias conclusões, de seu próprio absurdo. Eu não desfazia apatia, e um certo asco. Nem Clarice nem Nietzsche, nem Jung nem Buda ensinaram-me empatia pela dissimulação. Acho feio. Quase como artigo que não se limpa. 
   Trazia-me fotos, vez por quando. Também elas não me despertavam interesse; menos ainda que a questão: que tenho eu a ver com isso?, que quase me enraivecia. Telefonava, fazia o possível para não se perder de vista, não aguentaria. Tinham de prestar-lhe atenção, era um pouco infantil. Eu lhe diria que se ocupasse consigo, não haveria melhor conselho e partida. 
     Dava-se, às vezes, o privilégio de me fazer perguntas, não sei por quais motivos. Talvez por curiosidade. Ou para iludir-se. Quem poderia saber, senão ela, do que imaginava e de seus desejos? Sua conduta era inadequada, deselegante e desmedida. Pra não dizer desonesta, e um pouco torpe. Suas palavras não tinham força, nem sequer eram verdadeiras. Franqueza lhe faltava a si, consigo mesma. Dizia ser uma pessoa confiável, querendo convencer-se. Leal, dizia. Seu marido sabia. Todos sabiam. De certo, não saberiam tudo. Seria preciso dar-lhes notícia das notícias pelas quais ela insistia, sequiosa pelo gosto. Não percebia que tudo de que dispõe é de um pouco de tempo. Desperdiçava-o com relações imaginárias, que iam e vinham, e iam e vinham, e iam... 
     Deixava-me cansado. A certa altura, dizia-se filha de deus, louvada fosse, longe de minha vista. Quiçá seu deus pudesse reduzir-lhe os mandamentos, bastava-lhe um, que lhe custava aprender: viver sua própria vida. Descer à terra, ao seu entorno, ao o que está a seu lado, ao seu presente. Era o melhor presente que poderia dar a si mesma. Aprender a exorcizar seus demônios, deixar cair, cair na real, esquecer. Sua esperança, certa vez, fora ter um filho, ah, se tivesse um filho, tudo seria diferente, seria para sempre. Não fosse seu despropósito, poderia aprender a bastar-se. Angustiava-se, e se consumia: como estaria a vida alheia? Como estaria o amor, onde houver? Teria dado frutos, crescido; teria-se expandido, fortaleceu-se? Diferenciou-se? Entoava para si seu próprio canto de loucura. E estava inevitavelmente só, em seu destempo e quimeras, presa num pretérito imperfeito. Eu poderia ter-lhe dito qualquer coisa, e nada. 
     A vida passa na rua, sai por todas as portas, verdeja por todos os lados, se ilumina. Mas você só vê o que vê. Cure seu abandono. Cuide da dieta. Cuide de você. Da sua sombra. Non ipse venena bibas.

dezembro 03, 2013

agosto 28, 2013

Previsão 
Chove na Rua da República. A luz do dia esmaece, e as únicas estrelas aparentes são as que se destacam nas calçadas antigas, compostas de pequenas pedras negras, que diferem das rosadas que as entornam. Sempre que passo por esse caminho, as estrelas me convocam. Penso na calçada da fama que nunca vi, e admiro ainda mais a beleza das estrelas anônimas da República, que se desdobram como um tapete lúdico em meio ao trânsito convulso dos fins de tarde, em meio ao odor de fast-food dos bares, em meio aos mil passantes apressados com seus guarda-chuvas desviantes, em meio aos parapeitos vingativos que gotejam fuligem. Em noites como essa, as estrelas se revestem de um atmosfera risonha, livres da competição celeste. Astros infames, as estrelas da Rua da República guardam silenciosas os percursos cotidianos, espiam o sono dos homens desacomodados das ruas, cintilam a poética impensada dos lugares de passagem. Chove sobre as estrelas, que saúdam com a graça dos estados encantados, os olhares que se inclinam.

abril 17, 2013



Amigo da onça

Sim, ele disse. Quem nunca teve um amigo da onça? 
Fiquei pensativa. Eu já teria tido, um amigo da onça? Considerando a floresta, pensei. Amigo da onça: indivíduo que se mostra amigo e, ao mesmo tempo, alguém em quem não se pode confiar. Amigo da onça, que triste. Se alguém me perguntasse o que dizer sobre um amigo da onça, eu diria: triste! Talvez  seja uma coisa profunda, dar de ver um amigo da onça. É como um soco no olhar da gente, sabe? Um sismo. De repente tudo se desloca.

junho 14, 2012

   "Não quero que o meu destino ou a Providência me tratem bem. 
Sou essencialmente um lutador."
D. H. Lawrence

Dei por escrever.
Tenho entendido que todos os momentos são momentos de escrita, sobretudo os momentos de escuta. O curioso é que os momentos de escuta quase nunca consolam, e por não consolarem, nos deslocam.
Escrevo no deslocamento.
Dou de mim no que não sei quem sou nos momentos em que escrevo. Abrem-se-me as coisas, racham-se as palavras, e desbravo.
Escrever é permutar o silêncio.
Esvaziar o que se intenta dizer, e nutrir-se.
Inscrevo-me em vazios e desvãos que por instantes me insistem.
Escrevo na superfície.

junho 13, 2012

Nutrir-se

Frio. Fogo. Chá de bergamota e tinta no papel. Boa fortuna. Comprometer-se traz felicidade.

setembro 08, 2011

Pouco me importa.
Pouco me importa o quê? Não sei: pouco me importa.

Pouco me importa
Alberto Caeiro
Poemas Inconjuntos

fevereiro 19, 2011

[Cartas a Théo]

Meu caro Théo,

Há algo que me atormenta e que eu quero lhe contar; talvez você já esteja a par, e eu não lhe conte nenhuma novidade. Eu queria lhe dizer que neste verão comecei a amar K. Mas quando me declarei, ela me respondeu que seu passado e seu futuro permaneciam inseparáveis para ela, e que jamais ela poderia corresponder aos meus sentimentos.

Tive então que resolver um terrível dilema: resignar-me a este ‘jamais, não, jamais’ ou considerar a coisa como não resolvida, guardar boas esperanças e não me resignar? Escolhi esta última hipótese.Enquanto isso continuo a trabalhar duro, e desde que a encontrei meu trabalho está bem mais fácil. [ ]

Acontece-lhe, às vezes, Théo, de ficar apaixonado? Eu gostaria que isto lhe acontecesse, pois, creia-me, as pequenas misérias também tem seu valor. Às vezes ficamos desolados, há momentos em que acreditamos estar no inferno, mas há ainda outras coisas, e melhores. Pois bem, old boy, fique também apaixonado e conte-me por sua vez, seja amável num caso como o meu e mostre-me simpatia.

Etten, setembro de 1881

fevereiro 17, 2011

janeiro 24, 2011

Aleatório Tudo permaneceu no lugar desde a tua partida. Nada permaneceu igual.

dezembro 12, 2010

Um sopro

Por nós.

Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas, que só esperam nos ver um dia belos e corajosos.

Rainer Maria Rilke

Tirou do bolso um livro sagrado, e me deu. – Aprenda a respirar, é um exercício e um segredo, disse. Li as pequenas letras douradas do título e me incomodei um pouco com a verdade. Guardei-o na bolsa e sorri. – Vai te fazer bem, disse. Não respondi. Mas pensei que se houvesse algo que naquele instante pudesse me fazer bem, certamente não seria a verdade.

Silenciamos por um tempo no caminho de ida, e no caminho de volta, a volta parecia não ter fim. Tudo que eu podia pensar era que as horas feitas de finuras e afins findavam. Tentei dissipar o pensamento em olhares voláteis, observando sem deter-me nos detalhes a paisagem que se abria num horizonte de acasos, como aquele que nos fizera cúmplices. Mas não existem acasos, e eu bem sabia. Voltei ao pensamento com certo desconcerto, certa de que a razão é insuficiente e de que a vida é mais misteriosa e fatal do que qualquer oráculo jamais poderia prever.

No limite do razoável nos contemplamos cansados, fatigados de silêncio e fim. Eu lamentava nosso encontro em descomeço, no avesso do que é vida e se esvai. E então partimos, por entre escolhas e abismos, partidos de nós, divididos e doídos e um pouco fracos.

Ali eu pressentia a inconstância no passar dos dias, as contrações e os contra-sensos de um corpo que desaprende o movimento de expansão, e apenas contrai. Eu temia não mais vibrar, temia perder o contorno e dissipar na ausência de gestos qualquer possibilidade de recomeço, de re-contexto. Numa fração de segundos, enquanto eu assuntava sensações e pensares, nos despedimos; ambos sabendo que olhar pra trás seria o adiante, até que o mundo desse conta de girar um pouco e a gravidade nos devolvesse ao centro.

Do que faltava, escolhi o caminho mais longo, que faria em passos curtos e pensando no que acontecia, buscando encontrar um sentido no meio do que concretamente parecia ser o caos. Pincei todos os momentos e memórias, da infância ao inferno. Naquela manhã ao acordar, com os raios de sol ainda tímidos e mansos a perpassar as frestas da persiana entreaberta, delineei um esforço quase sem forças de levantar-me. Ao estender o braço em direção ao relógio derrubei sem querer a escultura. Mais cacos, balbuciei sonolenta. Era um dragão, um pequeno dragão que vivia comigo. Tinha nos pés garras, como uma águia, e também asas. Inclinei-me à beira da cama e vi que a cauda havia quebrado. Não me soava um bom presságio, ouvi dizer que dragões sem cauda simbolizam perdas. Mas como eu de fato estava perdida, me ri do universo e levantei, ia encontrá-lo.

Coincidências não existem, e eu bem sei. Dragões simbolizam a força primitiva e ancestral, estão ligados à criação do mundo. Um dragão tanto pode ajudar quanto destruir, proteger ou corroer, são ambíguos os dragões. São como gente, não? Talvez mais livres.

À medida que me aproximava do porto e a tarde caía, a bruma ia invadindo as ruas, engolindo o horizonte. Olha o sopro, pensei; ao mesmo tempo em que inspirava lentamente o ar e aspirava o mistério. O sopro, eu quase ouvia. Havia lido em uma antiga lenda chinesa que quando a bruma cai, é porque os dragões estão soprando. Eles chegam, quando a bruma desce. Eu andava reto, mas pensava em círculos, certa de que não era acaso. O dragão chegava e aniquilava a própria cauda, indicando o fim e o começo de um novo ciclo, como a serpente.

Não sacrifiquemos o respiro, a verdade é um problema. Deixa-me construir a casa com telhado reclinado, pra que o dragão que voa longe, descanse.


novembro 16, 2010

Uma carta, uns cortes.

Para o Sal, um brinde.

If I were a good man, I’d understand the spaces between friends.

Cai uma chuva densa e rouca, entre trovões e travas. Aquelas, de que te falava outrora, e que exorcizo aos fiapos nessa escrita. Fico pensando se alguém mais terá pensado se, ao publicar uma carta num blog ela terá deixado de ser uma carta. Será? Não uma carta que já foi escrita antes e enviada, e que depois de um longo tempo e um pouco de prestígio sai dos baús do anonimato e vira evento. Mas isso não tem importância. É só uma questão cruzada, preocupação com o que seja uma carta de verdade. Verdade, verdade... discussão que nunca acaba, não é verdade? Sim, sim. Tu dirias não ter sido claro o suficiente e eu diria... eu diria o mesmo. Porque é mais simples compartilhar melancolias do que acompanhar raciocínios, não é verdade? Mas afinal, qual era mesmo o assunto dessa carta? Ah, sim, na verdade não importava o assunto, mas o ato. Já que o assunto não tem importância, vou falar do desimportante. Porque eu gosto do desimportante, de verdade. Ah, tantos anos e nenhuma análise. Tanta vida, e tantos cortes. O que tio Freud diria de um sonho que se sonha só, meu caro? Viu como eu flutuo só na superfície? Só, na superfície. Quando chegarem as gentes, dear, diga que vivo meu avesso. Essa frase não é minha, mas isso também não tem importância. Aliás, nada aqui tem importância. Só fraseio com a linguagem que me ausenta do que possa decifrar. E gosto.

PS: teu conselho virou bilhete.


outubro 27, 2010

[ ]

Julho de 1880

Meu caro Théo,

É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos. Até certo ponto, você se tornou um estranho para mim, e eu também talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É possível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. Soube em Etten que você tinha me enviado cinquenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo?
E é portanto para agradecer que lhe escrevo. [ ]
O que para os passaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isto não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja. [ ]
Preciso agora lhe aborrecer com algumas coisas abstratas, no entanto gostaria muito que você as escutasse com paciência. Sou um homem de paixões, capaz de, e sujeito a fazer coisas mais ou menos insensatas, das quais às vezes me arrependo mais ou menos. [ ]
Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me como um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não. Mas trata-se de por todos os meios tirar destas paixões o melhor partido. Por exemplo, para falar de uma paixão entre outras, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão. Você poderá entender isto. [ ]
Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário. Mas qual é o seu objetivo definitivo?, você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, a medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a ideia, no início vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos. [ ]
O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama queimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar esta chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e no entanto com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora em que alguém desejará aproximar-se - e ficar? [ ]
Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois que tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma mudança para melhor, computaria isso como um ganho, ficaria contente, e diria: "Enfim, afinal, havia alguma coisa". [ ]
Um pássaro na gaiola sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: "Os outros fazem seus ninhos, tem seus filhotes e criam a ninhada", e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. [ ]
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. Será isto tudo imaginação, fantasia? Não creio; e então perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade? Você sabe o que faz desaparecer a prisão.

Do seu,
VINCENT




outubro 14, 2010

Mis aforismos son notas marginales [ ] Con ellos no se podría, estrictamente, hacer otra cosa que no fuera sufrirlos y olvidarlos. Publicarlos es, tal vez, la manera más universal y contradictoria de conseguir ambas cosas.
Julio Cabrera

Ao som de Otto,
6 minutos

Desarruma tudo, sem saber de mim, Desarruma rumo, rumino eu, no silêncio e grito da escrita que falha e treme. E teme um tanto. Aqui por fora é só silêncio e limbo do que não digo, do que não dizes. Do que te guardas de mim, de ti.
Com descoberta ele disse, um dia, que a saudade é nossa, pois nenhuma outra língua traduz 'sentir falta de' com apenas uma palavra. Mas a saudade não cabe, nem em três palavras, nem em uma. Saudade é desnome, nome de ausência. Só é boa pro poeta, que verseja. não sei ser poeta
Não tenho escrito porque tenho pensado demais na escrita. No momento em que me sento a escrever a sensação se perde e eu raciocino, e morro. Trago a cesta cheia de uma colheita fértil, mas é como se eu
quisesse nascer e não conseguisse. Tomo consciência de todas as tintas sobre a mesa e da dificuldade de terminar o que começo. Sou engolida pelo instante que não colore nem fraseia, mas congela, e é porque eu tenho insônia que recorto esses retratos, num jogo exausto de adivinhação e espanto. Me basta ler, reler, ruir. Tenho adiante um silêncio cruzado, algumas questões sem resposta e todos os caminhos para dentro, ao que não sei seguir. Na esquina eu vejo ruínas, meu olhar alcança.

setembro 29, 2010

Noir

Impossível amanhecer. Ou não?

Depilei as axilas, as pernas, a púbis, os pelos. Raspei a sobrancelha e os cabelos. Não me reconheço. Revejo meu itinerário, limpo os armários, os bolsos, o peito. Levo na lágrima o filho que não tive e o bom filho que não fui. E outros.

Sonhei que todos os livros foram roubados.
Tentei ler nas mãos linhas apagadas e nos olhos a palavra que se cala no lugar que não alcanço. A terra não tem sido leve.